Este post é o segundo da série Antes do Primeiro Token, onde apresento como arquitetar soluções de próxima geração que utilizem IA generativa de maneira eficiente.
Introdução
Grande parte das discussões atuais sobre IA generativa gira em torno de aumentar a sua eficiência através da redução da quantidade de contexto compartilhado.
Isso acontece porque muitas organizações descobriram na prática que fazer um simples dump de dados não estruturados e confiar que um modelo Frontier será capaz de processá-los de forma consistente em qualquer fluxo de trabalho raramente produz os resultados esperados.
Ou, quando produz, o custo não fecha a conta. Em resumo:
Too much brute force baby 😉
No primeiro artigo desta série apresentei a hipótese de que a próxima geração de arquiteturas de IA não será definida apenas pelos modelos utilizados, mas pelas decisões tomadas antes de chamar esses modelos.
Diversos termos aparecem constantemente nessas discussões, como IA determinística, arquiteturas agentic e padrões modernos de orquestração, mas neste artigo quero focar em dois conceitos que surgem repetidamente quando o assunto é redução de contexto:
- Context Pruning
- Expert Judgment
Vou compará-los, discutir suas vantagens e limitações e apresentar um terceiro conceito que surgiu durante essa análise: Capability Routing.
Um conceito inspirado na forma como especialistas humanos resolvem problemas e que nasceu de uma pergunta que me incomodou bastante ao longo desta pesquisa:
Como reduzir contexto sem descartar justamente a informação necessária para gerar a resposta?
Dois conceitos que estão ganhando espaço
Antes de avançarmos, vale alinharmos rapidamente os conceitos que motivaram esta discussão:
| Técnica | Context Pruning | Expert Judgement |
|---|---|---|
| Descrição | Técnica utilizada para reduzir a quantidade de informação enviada para um modelo durante um processo de geração baseada em recuperação de conhecimento. | Capacidade de tomar decisões semelhantes às de um especialista humano. |
| Objetivo | Melhorar custo, latência, qualidade do grounding e aproveitamento da janela de contexto | Reproduzir a forma como especialistas identificam padrões, descartam alternativas, priorizam evidências e selecionam onde concentram sua atenção |
A ideia por trás do Context Pruning é bastante intuitiva: se enviar muito contexto para um modelo é ruim, basta enviar menos contexto, adicionando uma etapa intermediária que será responsável por eliminar informações consideradas menos relevantes.
Usuário -> Recuperação (100 documentos) -> Pruning (10 documentos) -> LLM – Resposta
Em arquiteturas de AI generativa pro-code (utilizando por exemplo o Azure AI Foundry) é algo possível de ser implementado através de Query Planning, Retrieval, Agentic RAG e Reranking. No entanto, em plataformas no/low code como o Copilot Studio e M365 Copilot geralmente não existe o mesmo nível de controle sobre o pipeline interno de recuperação, o que limita a aplicação e efetividade da técnica.
Outro fator limitante é que quanto mais agressivo for o pruning, maior o risco de se perder contexto, evidências ou precisão. Em outras palavras, toda estratégia de Context Pruning assume implicitamente que consegue responder corretamente à seguinte pergunta:
“O que será importante para responder antes que a resposta exista?”
Expert Judgment, por outro lado, lida com a redução de contexto através de uma abordagem totalmente diferente. Por exemplo, para responder a pergunta “Como configurar políticas de DLP para agentes do Copilot Studio?”, um especialista humano poderia seguir uma das abordagens a seguir:
| Abordagem 01 | Abordagem 02 |
|---|---|
| Ler toda a documentação online Selecionar todos os artigos relevantes Elaborar a resposta | Identificar os domínios relacionados Ler a documentação online relacionada Elaborar a resposta |
É óbvio que a abordagem 02 é muito mais eficiente: em poucos segundos o especialista já descartou mentalmente dezenas de domínios irrelevantes. Observe que o especialista não está tentando decidir quais páginas da documentação devem ser descartadas, ele está tomando uma decisão anterior:
Quais domínios, conhecimentos e capacidades merecem atenção.
O processo de análise só começa depois dessa decisão.
Por este motivo, mais as limitações citadas do Context Pruning, que acredito que adotar técnicas baseadas em Expert Judgement em arquiteturas no/low code de AI generativa tem o potencial de:
- Aumentar a eficiência, acuracidade e previsibilidade dos agentes e fluxos de trabalho já nas primeiras iterações.
- Empodera times de negócio e não especialistas ao permitir que foquem na criação e curadoria de conhecimento e documentação de processo de negócios para apoiar a tomada de decisão dos agentes.
- Acelera o desenvolvimento das soluções por permitir que os especialistas – no/low coders ou não – desacoplem contexto de negócio das instruções, o que inclusive facilita a manutenção e evolução da solução.
Capability Routing – estendendo o Expert Judgment para arquiteturas de agentes
Até este ponto discutimos duas abordagens diferentes para reduzir a quantidade de informação utilizada durante a resolução de um problema. Embora ambas possam produzir resultados semelhantes, existem diferenças importantes:
| Técnica | Context Pruning | Expert Judgement |
|---|---|---|
| Objetivo | O que devo remover? | Onde devo procurar? |
| Quando | Depois da recuperação | Antes da recuperação |
Isto me levou a formular um terceiro conceito, aplicável a arquitetura de agentes, que chamei de Capability Routing.
O que é Capability Routing?
É o processo de selecionar antecipadamente quais capacidades, especialistas, ferramentas, agentes e fontes de conhecimento devem participar da resolução de uma solicitação antes da fase de grounding.
A ideia é usar os mesmos mecanismos mentais que especialistas utilizam para orientar o funcionamento dos agentes.
Em vez de recuperar tudo para depois decidir o que remover, o agente busca determinar primeiro:
- Qual domínio está sendo discutido;
- Qual especialista deve participar;
- Qual ferramenta deve ser utilizada;
- Qual conhecimento deve ser consultado.
Somente depois disso a recuperação de contexto acontece.
Capability Routing na prática
Imagine um agente corporativo de RH.
Em uma primeira versão da solução, o agente possui acesso a toda a documentação relacionada à área.
- Benefícios
- Férias
- Folha de pagamento
- Admissão
- Desligamento
- Treinamento
- Avaliação de desempenho
- Políticas internas
- Regulamentos trabalhistas
Ela funcionaria adequadamente, mas para responder a pergunta “Quantos dias de férias posso vender este ano?” ele precisaria analisar todo esse material para decidir o que deve ou não participar da resposta.

Como um especialista humano resolveria esse mesmo problema
Agora imagine um analista experiente de RH recebendo exatamente a mesma pergunta. Normalmente aconteceria algo mais próximo disto:
Em poucos segundos o especialista já descartou mentalmente os subdomínios desnecessários sem nem precisar analisar nenhum documento.
Capability Routing aplicado a agentes
Uma arquitetura orientada por Capability Routing tentaria reproduzir exatamente ocomportamento do especialista humano.
Para a pergunta “Como solicito inclusão de dependentes no plano de saúde?” o fluxo de execução seria:

O que realmente está sendo reduzido?
Esse é um ponto importante. Capability Routing não reduz apenas contexto, ele reduz o espaço de decisão.
| Sem Capability Routing | Com Capability Routing |
|---|---|
| Todo o conhecimento ↓ Filtragem ↓ Ferramentas ↓ Resposta | Conhecimento sobre um domínio ↓ Filtragem ↓ Ferramentas ↓ Resposta |
A quantidade de documentos analisados diminui.
A quantidade de informações irrelevantes diminui.
A probabilidade de grounding incorreto diminui.
E tudo isso acontece antes mesmo da recuperação do conhecimento.
Por isso vejo o Capability Routing como uma extensão natural do Expert Judgment aplicada a arquiteturas de agentes.
Em resumo, o especialista humano reduz o problema identificando rapidamente o domínio correto. O agente deve fazer exatamente a mesma coisa ao selecionar antecipadamente quais capacidades, skills, ferramentas e fontes de conhecimento devem participar da resolução.
Cenas dos próximos capítulos
A teoria parece sólida. Mas como esse conceito se comporta em um ambiente real?
No próximo artigo apresentarei uma arquitetura de agentes construída no Copilot Studio que, sem utilizar mecanismos sofisticados de Context Pruning, já aplica diversos princípios de Capability Routing para selecionar antecipadamente quais capacidades, skills e fontes de conhecimento devem participar da resolução da solicitação antes da fase de grounding. Isso permitirá analisar como essas ideias podem ser aplicadas hoje em plataformas low/no-code, utilizando padrões relativamente simples de implementação.

Deixe um comentário